Antes de ser recluso na Itália, Zambelli destinou 2 milhões de reais para produção de filme sobre Bolsonaro
A destinação de R$ 2,6 milhões em emendas parlamentares à Liceu Pátrio de Cultura (ANC) foi objeto de auditorias do Tribunal de Contas da União (TCU) e de investigação preparatório do Supremo Tribunal Federalista (STF). O valor, que inclui dois milhões de reais enviados em julho de 2024 pela ex-deputada federalista Carla Zambelli (PL-SP), presa na Itália desde julho de 2025, seria utilizado em uma série documental de viés conservador. No entanto, o repositório direto nas contas do Tesouro paulista e os indícios de fragmentação operacional da ONG, presidida pelo produtor do filme biográfico sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, paralisaram o repasse e geraram alertas nos órgãos de controle de Brasília e do estado de São Paulo.
O caminho do moeda e da retenção em São Paulo
Os dois milhões de reais enviados por Carla Zambelli, quando ainda estava no incumbência, foram transferidos para o tesouro do governo de São Paulo, na gestão de Tarcísio de Freitas (Republicanos). Segundo auditoria do TCU, em 10 de julho de 2024, o valor ficou misturado nas contas do governo estadual, tornando-se irrastreável. A prática vai contra a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) daquele ano, que exige que cada modificação seja depositada em conta bancária específica e individualizada.
Depois mandamento judicial, o moeda foi devolvido às contas originais e transferido para uma conta segregada. Todavia, os fundos ainda não chegaram à ANC devido à falta de apresentação da documentação exigida. Em nota, o governo paulista declarou que adotou os controles necessários e alertou: “Caso as pendências não sejam resolvidas pela ONG, os recursos que permanecerem disponíveis para sua implementação serão devolvidos à União, nos termos da legislação.”
O caso não foi exceção no estado. Uma estudo de 25 transferências Pix recebidas nos dois primeiros anos do atual governo paulista revelou que todas foram inicialmente direcionadas para uma conta vinculada à Secretaria da Herdade de São Paulo (Sefaz-SP).
A origem dos recursos e os projetos propostos
A ANC apresentou um projeto orçado em R$ 2,6 milhões, financiado integralmente pelos parlamentares. O moeda financiaria a série “Heróis Nacionais – Filhos do Brasil que não desistem”, dividida em três capítulos temáticos: Portugal: Luz para o Brasil; José de Anchieta: o Evangelista do Brasil; e Dom Pedro I: o Libertador. O projeto também incluiu um show músico, cujos artistas não foram detalhados.
Além dos recursos de Zambelli, a produção obteve R$ 1 milhão por meio da emenda Pix do deputado federalista Marcos Pollon (PL-MS), atualmente suspensa por falta de decoro. Outras transferências, por meio de emendas com finalidade definida, vieram do deputado federalista destituído Alexandre Ramagem (PL-RJ), que enviou 500 milénio reais, e da deputada federalista Bia Kicis (PL-DF), que destinou 150 milénio reais.
Procurada, Bia Kicis negou que a verba tenha sido destinada ao filme sobre Bolsonaro, afirmando que sua emenda era exclusiva da série Heróis Nacionais.
A investigação do STF e o filme “Dark Horse”
A presidente da ANC, Karina Ferreira da Gama, também é produtora de Dark Horse, filme biográfico do ex-presidente Jair Bolsonaro. A atuação de suas empresas levou à exórdio de sindicância preparatório pelo ministro Flávio Dino, do STF.
A investigação investiga supostas irregularidades em emendas parlamentares destinadas a projetos culturais ligados a Karina. A medida foi motivada por pedido dos deputados federais Pastor Henrique Viera (PSOL-RJ) e Tabata Amaral (PSB-SP)que destacou que quatro entidades presididas ou de propriedade de Karina (Instituto Conhecimento Brasil, Go Up Entertainment, Saibar Brasil Assessoria e ANC) compartilham a mesma direção, gestão e infraestrutura. Para Amaral, a fragmentação operacional seria um “travanca à rastreabilidade dos recursos públicos”.
Para o ministro Flávio Dino, os elementos indicam “fatos que, em tese, configuram descumprimento de decisão do Plenário do STF, com violação de transparência e rastreabilidade, além de ramal do objetivo de destinação de emendas parlamentares”. A investigação do Supremo Tribunal procura informações dos cinco políticos envolvidos nas transferências para o ANC. Outrossim, a Justiça tenta convocar o deputado federalista Mario Frías (PL-SP), roteirista e ator do filme Dark Horse, para prestar esclarecimentos.
O financiamento do filme também ganhou notoriedade em seguida a publicação de conversas em que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pedia moeda a Daniel Vorcaro, do Banco Master, pela obra. Informações preliminares indicam promessa de R$ 134 milhões por segmento do banqueiro, dos quais R$ 61 milhões já teriam sido comprovados uma vez que repassados.
Conexões de negócios em São Paulo
O nome de Karina Ferreira da Gama tornou-se medial em investigações que envolvem desde órgãos de controle estaduais até o Ministério Público de São Paulo e o STF. Além de recursos federais, a empresária é gavinha de um contrato de R$ 108 milhões assinado com a Prefeitura de São Paulo.
As autoridades investigam as atividades de uma rede empresarial que, sob a justificativa de ações sociais, educativas e de conectividade do dedo, construiu uma complexa estrutura de captação de recursos. A principal suspeita dos investigadores é que essa infraestrutura pública da capital paulista possa ter servido de base operacional e de fluxo de caixa para a produção do projeto cinematográfico, parcialmente financiado com capital suspeito.
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