Impedimento semiautomático da Copa de 2026: tecnologia do futebol inspira análise sobre confiabilidade digital, diz Obede Bessa
A tecnologia utilizada para identificar impedimentos na Copa do Mundo de 2026 vai além da arbitragem e oferece um exemplo de como sistemas digitais precisam funcionar de maneira integrada para produzir resultados confiáveis. A partir dessa aplicação no futebol, o arquiteto de soluções em nuvem Obede Bessa Rocha da Silva analisa os desafios de monitoramento, prevenção de falhas e continuidade operacional em ambientes tecnológicos complexos.
Pesquisador independente em arquitetura de nuvem e DevOps, Bessa construiu sua carreira na área de tecnologia no Brasil, onde começou em 2008, e atualmente está na Flórida, nos Estados Unidos. Senior Member do IEEE, ele é autor do livro “A Nuvem Não Cai Sozinha” e criador do Evidence-Aware Control Plane (EACP), uma arquitetura voltada à organização de evidências sobre o funcionamento de ambientes em nuvem.
A relação entre futebol e tecnologia está no centro da análise. Em uma partida, a identificação de um impedimento pode depender da combinação de imagens, dados de rastreamento dos jogadores, informações sobre a bola e processamento dos registros. Para Bessa, esse cenário ajuda a ilustrar questões que também aparecem em sistemas digitais utilizados por empresas e instituições.
“Quando pensamos em uma operação em tempo real, não basta que um sistema simplesmente esteja disponível. É preciso considerar o que acontece se um componente falhar, se houver atraso na comunicação ou se algum serviço deixar de responder. É por isso que conceitos como redundância, observabilidade, alta disponibilidade e contingência são tão importantes em ambientes críticos”, explica Bessa.
Como funciona a tecnologia de impedimento da Copa de 2026
Segundo a FIFA, a versão avançada da tecnologia semiautomática de impedimento utilizada na Copa do Mundo de 2026 combina câmeras de rastreamento instaladas nos estádios, dados sobre a posição dos jogadores e informações transmitidas por sensores incorporados à bola oficial do torneio, a TRIONDA.
O sistema utiliza 16 câmeras ópticas de rastreamento em cada estádio, capazes de gerar mais de 150 milhões de pontos de dados por partida. A bola conta com um sensor que opera a 500 Hz, fornecendo informações sobre seu movimento e ajudando a identificar o momento exato do toque, aspecto fundamental para determinar a posição dos jogadores no instante do passe.
Outra característica da versão avançada é o envio de alertas diretamente aos árbitros em campo em situações claras de impedimento. A tecnologia também utiliza modelos tridimensionais dos jogadores, construídos a partir de escaneamentos realizados antes do torneio, para auxiliar na identificação das partes do corpo relevantes para a decisão.
A automação, entretanto, não elimina a participação humana. A tecnologia auxilia na identificação da posição de impedimento, enquanto a arbitragem mantém a responsabilidade pelas decisões que dependem de avaliação das regras do jogo. A FIFA também prevê ferramentas alternativas para a análise de impedimentos caso o sistema apresente falhas.
Para Obede Bessa, o exemplo demonstra que a confiabilidade não depende apenas da qualidade de cada equipamento, mas também da maneira como os componentes trabalham em conjunto. Uma câmera pode funcionar corretamente, mas um atraso na transmissão ou uma falha na integração dos dados pode comprometer o resultado final.
“Quanto maior o número de sistemas envolvidos em uma operação, maior também é a necessidade de integração e monitoramento. Não adianta um componente funcionar perfeitamente de maneira isolada se a comunicação entre as partes apresenta problemas. A confiabilidade está no conjunto”, afirma o especialista.
A comparação proposta por Bessa é conceitual. O pesquisador não analisa a arquitetura interna dos sistemas utilizados pela FIFA nem afirma que a operação do árbitro assistente de vídeo (VAR) esteja hospedada em nuvem. O paralelo está nos desafios compartilhados por operações críticas, como a integração entre componentes, a continuidade do serviço e a identificação de falhas.
Resiliência digital também envolve gestão
A relação entre infraestrutura tecnológica e continuidade operacional é um dos temas abordados por Bessa no livro “A Nuvem Não Cai Sozinha: DevOps, governança e resiliência digital para instituições que não podem parar”.
Na obra, o autor relaciona decisões de arquitetura à gestão de riscos, à resposta a incidentes e à capacidade de recuperação dos serviços. A proposta é tratar a resiliência como uma questão que envolve tanto a infraestrutura quanto os processos de gestão e a preparação das equipes.
Em vez de concentrar a discussão em uma ferramenta específica, Bessa propõe que profissionais de tecnologia e gestores identifiquem prioridades, avaliem riscos e estabeleçam alternativas compatíveis com a realidade de cada organização. O livro também apresenta um roteiro de 90 dias para transformar o diagnóstico em ações práticas.
O tema ganhou relevância regulatória em diferentes mercados. Na União Europeia, o Regulamento de Resiliência Operacional Digital (DORA) passou a ser aplicável em 17 de janeiro de 2025 e estabelece exigências relacionadas à gestão de riscos tecnológicos, ao tratamento de incidentes e aos testes de resiliência para as entidades financeiras abrangidas.
No Brasil, a Resolução CMN nº 4.893/2021 estabelece requisitos de segurança cibernética e regras relacionadas à contratação de serviços de processamento e armazenamento de dados e de computação em nuvem pelas instituições autorizadas a funcionar pelo Banco Central, dentro de seu âmbito de aplicação.
Essas normas demonstram como a preparação para incidentes e a continuidade dos serviços passaram a integrar as obrigações de organizações de setores regulados.
“Resiliência não significa imaginar uma infraestrutura em que nada dará errado. Significa preparar o ambiente para que uma falha seja identificada, isolada e tratada com o menor impacto possível sobre o serviço principal”, diz Bessa.
EACP busca organizar evidências sobre falhas e mudanças
Enquanto o livro aborda a continuidade operacional, a pesquisa de Bessa se concentra na rastreabilidade de eventos tecnológicos.
O Evidence-Aware Control Plane (EACP) foi concebido para enfrentar uma dificuldade comum às equipes de operação: as informações necessárias para explicar uma mudança em um serviço podem estar distribuídas por diferentes ferramentas. Um registro pode mostrar a implantação de uma versão, enquanto outro documenta uma autorização de acesso e um terceiro registra um alerta ou uma ação de recuperação.
A proposta da arquitetura é criar uma camada que organize informações essenciais sobre esses eventos e mantenha referências aos registros originais, sem substituir os sistemas responsáveis por produzi-los.
Por padrão, essa camada funciona paralelamente ao fluxo principal da aplicação. A ideia é evitar que o mecanismo de governança se transforme em uma etapa obrigatória do atendimento das requisições e, consequentemente, em um possível ponto adicional de falha.
O trabalho foi publicado como preprint em um repositório científico internacional, com código e dados abertos para permitir a reprodução dos testes.
Na avaliação do protótipo, Bessa realizou experimentos com cargas de até 100 mil eventos. A campanha incluiu testes com perda, alteração e duplicação de identificadores, além de atrasos e outras condições capazes de dificultar a reconstrução do histórico. O pesquisador também conduziu avaliações controladas em três versões do Kubernetes, plataforma utilizada para organizar a execução de aplicações em nuvem.
Um dos princípios do projeto é não apresentar uma reconstrução como confiável quando faltam informações necessárias para estabelecer a relação entre registros. Nesses casos, a arquitetura indica que não há evidências suficientes, em vez de produzir uma associação potencialmente incorreta.
O próprio relatório delimita o alcance dos resultados: os testes demonstram viabilidade em condições controladas, mas não comprovam eficácia em ambientes de produção nem desempenho em grande escala.
O documento também registra uma etapa inicial de testes que não atingiu os critérios previstos, explica o problema identificado no procedimento de verificação e apresenta separadamente os testes confirmatórios realizados após a correção.
Para Bessa, documentar as condições dos experimentos, os resultados e as limitações é parte essencial do processo científico, pois permite que outros profissionais reproduzam, avaliem e ampliem a pesquisa.
Da infraestrutura de TI à pesquisa científica
A experiência profissional de Obede Bessa também inclui atividades relacionadas à operação de sistemas e à continuidade de serviços.
Entre 2010 e 2012, ele foi responsável pelas operações e pela infraestrutura local de TI da 3G Telecom, parceira autorizada da Claro no Estado do Rio de Janeiro. Entre as atividades desenvolvidas estavam a gestão de incidentes, a coordenação de fornecedores e a documentação técnica.
Em 2013, fundou a TECBI Soluções Tecnológicas e Publicidade, empresa que dirigiu até 2019 e por meio da qual conduziu projetos de infraestrutura, continuidade operacional e modernização tecnológica para clientes.
Entre 2008 e 2019, também liderou voluntariamente a modernização de registros administrativos e financeiros de unidades da Igreja Metodista no Estado do Rio de Janeiro, incluindo Macaé, Cabo Frio, Niterói e a capital fluminense. O trabalho envolveu a implantação de soluções e o treinamento de lideranças, equipes administrativas e voluntários.
Formado em Gestão da Tecnologia da Informação pela Faculdade Infnet, Bessa é Senior Member do IEEE, associação que concede essa categoria a profissionais que atendem a critérios de experiência e contribuições relevantes na área. Ele também possui as certificações AWS Certified Solutions Architect – Professional, AWS Certified DevOps Engineer – Professional e Google Cloud Professional Cloud Architect.
Na área acadêmica, atua como revisor de manuscritos para os periódicos Discover Computing, Data in Brief, Soft Computing e Engineering Applications of Artificial Intelligence. Também integrou bancas de trabalhos de conclusão de curso e concluiu formação em revisão por pares pela Nature Masterclasses.
O que o futebol revela sobre a confiabilidade digital
A tecnologia aplicada à arbitragem e os sistemas utilizados por bancos, hospitais, governos e organizações sem fins lucrativos têm finalidades diferentes, mas podem compartilhar desafios relacionados à disponibilidade, à integração de dados e à resposta a incidentes.
Na Copa do Mundo, o resultado de uma análise de impedimento precisa chegar à arbitragem em tempo hábil e com informações que permitam sustentar a decisão. Em outros ambientes, a confiabilidade pode estar relacionada à manutenção de um serviço, à recuperação de uma operação ou à capacidade de explicar o que aconteceu depois de uma falha.
Na interpretação de Obede Bessa, o ponto em comum está na necessidade de preparar os sistemas para situações em que algum componente deixa de responder ou apresenta um comportamento inesperado.
“A tecnologia mais eficiente muitas vezes é aquela que passa despercebida. O usuário não precisa conhecer toda a estrutura existente por trás de um serviço. Ele espera que funcione quando precisar. Para chegar a essa experiência aparentemente simples, porém, existe muito trabalho de arquitetura, monitoramento, segurança e contingência”, afirma.
A partir do futebol, o pesquisador apresenta uma discussão sobre os bastidores da confiabilidade digital. Enquanto a tecnologia semiautomática de impedimento ajuda a arbitragem a analisar lances em campo, sua pesquisa busca desenvolver mecanismos para organizar evidências, acompanhar operações e tornar mais confiável a compreensão dos eventos que ocorrem em ambientes digitais.
*Por Yuri Donegate

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