Qual é a situação da Haas, futura equipe de Câmara na F1?
Rafael Câmara fará sua estreia na Fórmula 1 defendendo as cores da Haas em 2027. O brasileiro já sabe que não brigará por vitórias – pelo menos por enquanto – uma vez que a equipe norte-americana completou apenas 10 anos na categoria e nunca venceu uma corrida.
Atualmente, a F1 conta com 11 equipes e 22 pilotos. Tirando os times ‘novatos’ — Audi e Cadillac —, a Haas está na lista de times que nunca subiram ao pódio com nenhum de seus dois pilotos.
Historicamente, a equipe norte-americana flutua entre o pelotão intermediário e o fundão. Por exemplo, em 2026, o início pareceu promissor, com ambos os pilotos – Oliver Bearman e Esteban Ocon – conquistando bons resultados.
No entanto, com o decorrer da temporada, o carro ficou defasado, fazendo com que a dupla se tornasse uma incerteza na zona de pontos e na segunda e terceira sessão da classificação.
Além disso, Bearman e Ocon tiveram dificuldades de pontuar consistentemente a partir do GP de Barcelona. A dupla passou oito finais de semana sem terminar no top 10.
Comparação de pontos Bearman x Ocon 2026
Dependência da Ferrari
Desde sua estreia, a Haas mantém uma forte parceria técnica com a Ferrari. A equipe norte-americana conta, inclusive, com uma base em Maranello, na Itália, onde estão concentradas áreas como o escritório de design, o desenvolvimento aerodinâmico e a dinâmica de fluidos computacional (CFD ou simulador).
Além disso, a Haas utiliza o túnel de vento dos italianos para desenvolver e avaliar soluções aerodinâmicas, reforçando sua dependência da estrutura técnica.
Apesar dos investimentos em melhorias e da ampliação de sua estrutura, a escuderia ainda enfrenta desafios para se consolidar como uma equipe capaz de disputar vitórias e pole positions. Com uma das menores estruturas do grid, o time precisa aproveitar seus recursos de maneira eficiente para reduzir a distância em relação aos concorrentes mais fortes.
É nesse cenário que Câmara fará sua estreia na categoria em 2027. O brasileiro terá o desafio de se adaptar às exigências da F1 enquanto busca extrair o máximo de um carro que, ao menos no cenário atual, não tem como objetivo imediato disputar vitórias.
Por isso, entender o histórico da Haas, suas limitações estruturais e os investimentos realizados nos últimos anos é fundamental para dimensionar o desafio que espera o brasileiro em sua primeira temporada na principal categoria do automobilismo mundial.
Esteban Ocon, Haas F1 Team
Foto de: Guido De Bortoli / LAT Images via Getty Images
Início da Haas
Idealizado por Gene Haas, o projeto da equipe começou a tomar forma em abril de 2014; assim, a estreia na F1 estava prevista inicialmente para 2015, mas foi adiada para a temporada de 2016.
A Haas foi o primeiro projeto norte-americano a apresentar uma candidatura para entrar na categoria desde a tentativa frustrada da US F1 Team, em 2010. Sua chegada se deu pelo colapso da Marussia durante a temporada de 2014, quando a equipe anglo-russa leiloou seus ativos.
Desde sua chegada ao grid, a escuderia mantém uma forte parceria com a Ferrari, fornecedora de suas unidades de potência produzidas em Maranello, na Itália. A Haas também estabeleceu uma colaboração com a Dallara, responsável pelo projeto e pela fabricação dos chassis.
Gunther Steiner, figura conhecida no paddock da F1, foi escolhido para liderar a equipe como chefe. Antes de assumir o cargo, o italiano havia trabalhado como diretor técnico da Jaguar e da Red Bull.
O francês Romain Grosjean foi o primeiro piloto anunciado, ainda em 2015, para a temporada de estreia da Haas. Meses depois, durante o GP do México daquele ano, Esteban Gutiérrez foi confirmado como o segundo titular da escuderia.
Romain Grosjean & Gene Haas, Haas
Foto de: Sam Bloxham / LAT Images via Getty Images
Primeiros pontos
A equipe teve a chance de conquistar seus primeiros pontos já na temporada de estreia. Naquele ano, o grid contava com 11 equipes: Mercedes, Red Bull, Ferrari, Force India, Williams, McLaren, Toro Rosso, Haas, Renault, Sauber, Manor Racing
Grosjean foi o piloto mais consistente pela Haas já em sua estreia, terminando entre os 10 primeiros nas duas primeiras corridas, enquanto Gutiérrez enfrentou problemas em ambas e abandonou.
As conquistas de Romain colocaram o nome da equipe norte-americana nos holofotes e na história: os oito pontos conquistados na Austrália foram os primeiros de uma equipe dos Estados Unidos.
O começo positivo foi o que garantiu o oitavo lugar na tabela de construtores, uma vez que a Haas acabou perdendo o desempenho no meio da temporada, permitindo pontos apenas em mais três ocasiões.
Romain Grosjean, Haas VF-16
Foto de: Dirk Klynsmith / Motorsport Images
Chegada de Magnussen
Kevin Magnussen foi colocado como dupla de Grosjean no lugar de Gutiérrez e a parceria se provou positiva. Os dois pilotos pontuaram na temporada de 2017, inclusive com uma dobradinha entre os 10 primeiros no GP de Mônaco.
Já em 2018, a Haas se tornou polêmica depois de apresentar o VF-18. Alguns concorrentes pediram investigações no chassi da equipe, uma vez que o projeto apresentado era muito parecido com o SF70H, carro da Ferrari na temporada anterior.
Naquele ano, a equipe conquistou bons pontos e chegou a se aproximar de pódios na Austrália (mas enfrentou um abandono duplo na corrida) e depois na Áustria, quando Magnussen e Grosjean terminaram em quarto e quinto.
2018 foi a melhor temporada da Haas desde sua estreia. A equipe garantiu o quinto lugar entre os construtores.
Romain Grosjean, Haas F1 Team VF-19
Foto de: Jerry Andre / Motorsport Images
Temporada difícil em 2019
A Haas fechou um acordo financeiro vantajoso com a Rich Energy para 2019. A empresa de bebidas energéticas já havia sido ligada uma tentativa de compra da Force India, mas aceitou fazer parte do nome do time americano, transformando-o em Rich Energy Haas F1 Team.
Naquela temporada, o VF-19 era um carro muito bom de classificação, colocando os pilotos em posições competitivas, mas a fraqueza estava na velocidade na corrida. O melhor resultado aconteceu no GP da Austrália, com Magnussen, na sexta posição.
Acidente de Grosjean e chance de Pietro Fittipaldi
Na volta de apresentação do GP do Bahrein de 2020, Grosjean sofreu um dos acidentes mais graves e surpreendentes dos últimos anos da F1. O piloto colidiu com a AlphaTauri de Daniil Kvyat e atravessou as barreiras entre as curvas 3 e 4, fazendo com que seu carro se partisse ao meio e pegasse fogo.
Romain ficou preso por alguns minutos no cockpit, sofreu ferimentos e queimaduras graves nas mãos e foi rapidamente levado ao hospital. Grosjean ficou afastado pelo restante da temporada para se recuperar, dando a chance de Pietro Fittipaldi assumir seu lugar em Sakhir e Abu Dhabi.
Romain Grosjean, Haas
Foto de: Andy Hone/ LAT Images via Getty Images
Momentos difíceis com Mazepin e Schumacher
Para 2021, a Haas precisou se reestruturar depois que Grosjean e Magnussen deixaram a equipe. Foi neste momento que Nikita Mazepin e Mick Schumacher assumiram os cockpits da equipe norte-americana, mas tiveram dificuldades, uma vez que o time focou todos os seus investimentos financeiros no carro de 2022.
Naquele ano, a Haas teve o seu pior resultado em anos: terminou sem somar nenhum ponto, como última colocada na tabela de construtores.
Em 2022, Mazepin foi forçado a ser substituído por conta de sua forte relação com a Rússia. A Haas deixou o piloto russo de lado e abriu mão do patrocínio da Uralkali após a invasão russa na Ucrânia. Magnussen foi trazido de volta e conseguiu fazer a equipe voltar à zona de pontos em algumas corridas, mas Schumacher deixou o time ao fim da temporada de maneira bastante polêmica.
Retorno de Hulkenberg
Nico Hulkenberg retornou ao grid da F1 no segundo assento da Haas em 2023. A equipe teve mais uma temporada bastante difícil, terminando na última posição e somando apenas 12 pontos – terceiro pior resultado.
Naquele ano, a escuderia passou a competir como MoneyGram Haas F1 Team, após firmar um acordo de patrocínio com a empresa de serviços financeiros.
Nico Hulkenberg, Haas F1 Team
Foto de: Andy Hone / Motorsport Images
Apesar da experiência da dupla, a equipe enfrentou dificuldades com o VF-23, principalmente em relação ao desgaste dos pneus durante as corridas. O carro demonstrava potencial em voltas rápidas, permitindo que os pilotos alcançassem posições competitivas na classificação, mas tinha dificuldades para manter o ritmo ao longo dos GPs.
No Canadá, Hulkenberg chegou a registrar o segundo melhor tempo na classificação sob chuva, mas uma punição o fez largar em quinto.
O desempenho nas corridas, entretanto, limitou os resultados da equipe: Nico conquistou o melhor resultado da Haas na temporada, com o sétimo lugar na Austrália.
Ao longo do campeonato, o time pontuou em apenas cinco etapas e terminou o Mundial de Construtores na décima posição, com 12 pontos. O resultado evidenciou a dificuldade de transformar o desempenho em classificação em resultados consistentes aos domingos.
Mudança de chefe e aproximação com a Toyota
A temporada de 2024 começou com uma mudança importante na estrutura de gestão da Haas. Steiner, que liderava a equipe desde sua estreia, deixou o cargo de chefe de equipe, e Ayao Komatsu assumiu a função em janeiro.
Ryo Hirakawa, Haas VF-24
Foto de: Andy Hone / Motorsport Images
Na pista, a Haas manteve Hulkenberg e Magnussen no comando do VF-24. Eles conseguiram recuperar a competitividade em relação ao ano anterior, com os dois pilotos contribuindo para a conquista de pontos ao longo do campeonato. O alemão teve atuações de destaque e chegou ao quarto lugar na classificação do GP de Abu Dhabi, enquanto o time conseguiu melhorar sua posição no Mundial de Construtores.
Um dos movimentos mais relevantes ocorreu em outubro, quando a Haas anunciou uma parceria técnica plurianual com a Toyota Gazoo Racing. O acordo foi criado para compartilhar conhecimento, recursos e experiência nas áreas de engenharia, design e fabricação, além de contribuir para o desenvolvimento de pilotos, engenheiros e mecânicos. A iniciativa marcou o retorno da Toyota ao envolvimento direto com uma equipe de F1 desde sua saída da categoria, em 2009.
A equipe encerrou o campeonato na sétima posição, com 58 pontos, uma evolução significativa em relação ao décimo lugar de 2023.
Dupla nova e avanços
Em 2025, a Haas iniciou uma nova fase com Esteban Ocon e Oliver Bearman. Hulkenberg deixou a equipe para retornar à Sauber, enquanto Magnussen também saiu após o encerramento de seu contrato.
Bearman, vindo da Fórmula 2 e anteriormente piloto reserva da Ferrari, passou a integrar a dupla titular, marcando o retorno da Haas à contratação de um estreante para uma temporada completa desde 2021.
Oliver Bearman, Equipe Haas de F1
Foto de: Guido De Bortoli / LAT Images via Getty Images
O início do campeonato foi difícil. Na etapa de abertura, na Austrália, Ocon terminou em 19º, enquanto Bearman enfrentou problemas na classificação relacionados à caixa de câmbio.
Na corrida seguinte, na China, os dois pilotos pontuaram: Ocon cruzou a linha de chegada em sétimo e Bearman em décimo. Após desclassificações de outros competidores, os resultados foram promovidos para quinto e oitavo lugares, respectivamente.
Ao longo do ano, a equipe conseguiu outros resultados importantes, incluindo chegadas duplas na zona de pontuação. O grande destaque foi o GP da Cidade do México, no qual Bearman terminou em quarto lugar, igualando o segundo melhor resultado da história da Haas em uma corrida.
O desempenho do britânico foi um dos pontos altos da temporada e demonstrou que a equipe podia aproveitar oportunidades para competir em posições mais avançadas.
A Haas terminou 2025 com 79 pontos, superando os 58 obtidos no ano anterior. Apesar do crescimento na pontuação, caiu do sétimo para o oitavo lugar no Mundial de Construtores, em meio à disputa apertada do pelotão intermediário.
A parceria com a Toyota também continuou avançando, preparando o terreno para uma colaboração mais ampla em 2026.
Nova identidade com a Toyota
A temporada de 2026 representa uma nova etapa para a equipe, que passou a competir como TGR Haas F1 Team, incorporando a Toyota Gazoo Racing ao nome oficial. A mudança reflete o aprofundamento da parceria iniciada em 2024, que deixou de ser apenas um acordo técnico para ganhar maior destaque na identidade comercial da escuderia.
A Toyota ampliou sua presença como parceira principal, enquanto a Haas continua sob o comando de sua estrutura norte-americana.
Esteban Ocon, Haas F1 Team
Foto de: Simon Galloway / LAT Images via Getty Images
A equipe manteve Ocon e Bearman como titulares e apresentou o VF-26 para a nova temporada.
A nova fase também precisa ser compreendida no contexto da mudança de regulamentos técnicos da F1 em 2026. A adaptação às novas exigências representa um desafio para todas as equipes, exigindo trabalho de desenvolvimento e integração entre os diferentes sistemas do carro.
Para a Haas, a combinação entre a experiência acumulada com a Ferrari e os recursos oferecidos pela Toyota pode contribuir para ampliar sua capacidade técnica, embora a parceria, por si só, não garanta resultados melhores.
Histórico de pontos da Haas
Histório de classificação da Haas
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